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| André Singer |
"Encerrada a contenda começaram a proliferar
informações contraditórias a respeito das escolhas cruciais a serem feitas pela
ex-jovem heroína. A primeira veio à tona menos de 24 horas após contados os
votos. Dilma estaria em busca de um nome do mercado para ministro da Fazenda.
Mas se era para entregar a política econômica aos banqueiros como justificar os
ataques a Marina e Aécio?", questiona André Singer, cientista
político, no artigo "Sinais trocados", publicado no jornal Folha de
S. Paulo, exemplar de sábado (1º).
Segundo
ele, "a presidente parece não ter
percebido que os dizeres contam e que o preço de afirmar uma coisa e fazer outra
é muito maior do que parece".
Eis
o artigo:
Todo mundo sabe
que Dilma Rousseff ganhou a eleição. Mas talvez não tenha ficado claro o
suficiente qual foi a persona vencedora e o quanto pode prejudicá-la emitir
sinais duvidosos a respeito do significado da vitória. A primeira semana depois
do pleito foi cheia deles.
Para recordar. A
propaganda da candidata realçou, desde o início, a face heroica da jovem Dilma.
Engajada em opção armada, aguentou a tortura de maneira exemplar no fim dos
anos 1960. Fez-se símbolo do que houve de mais corajoso na resistência de esquerda
à longa noite ditatorial.
Em seguida, Dilma
começou a ganhar a eleição quando escolheu combater Marina Silva pela esquerda.
Diante do anúncio, feito pela então candidata do PSB em ascensão fulminante, de
que daria independência ao Banco Central, o programa eleitoral da hoje
ganhadora apresentou uma equação mortífera. BC independente equivaleria a
entregar a instituição aos banqueiros e estes tirariam a comida do prato dos
pobres.
Vale repetir.
Marina caiu sob golpes de esquerda, os quais são até difíceis de apresentar e
de explicar numa época de hegemonia neoliberal. Foi opção ousada; deu certo. A
porta-voz da Rede Sustentabilidade ficou para trás e o coração valente
prosseguiu.
A vitória final
começou a ser construída quando, no segundo turno, Dilma e Lula escolheram
mostrar o caráter de classe da candidatura Aécio. Não foi deslize Lula ter
chamado o tucano de "filhinho de papai". Outra vez, escolha arriscada
- envolvia um tipo de radicalização ao qual o Brasil é pouco afeito. De novo
funcionou: a antiga guerrilheira chegou à frente, raspando a trave.
Encerrada a
contenda, no entanto, começaram a proliferar informações contraditórias a
respeito das escolhas cruciais a serem feitas pela ex-jovem heroína. A primeira
veio à tona menos de 24 horas após contados os votos. Dilma estaria em busca de
um nome do mercado para ministro da Fazenda. Mas se era para entregar a
política econômica aos banqueiros como justificar os ataques a Marina e Aécio?
No dia seguinte
coube ao próprio BC protagonizar mais uma emissão atravessada de sinais. Para
surpresa do próprio mercado, a diretoria decidiu aumentar os juros. Mas não era
isso que se queria evitar? Dilma havia dito que o PSDB plantava
"dificuldades para colher juros". E agora?
Por fim, surge a
informação de que o governo prepara um pacote com redução de gastos públicos
para a semana que vem. Na campanha, Dilma disse que os tucanos só sabiam
cortar, e que ela faria diferente. A presidente parece não ter percebido que os
dizeres contam e que o preço de afirmar uma coisa e fazer outra é muito maior
do que parece.


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